
Meus ouvidos andam inebriados com a música instrumental. Descobriram com mais fervor que ela fala e canta em línguas tão sutis que encontra no universo a sintonia perfeita com a obra do Criador. São José Diligente é o CD lançado por Marcos Quinan, em novembro de 2004. Tem a ousadia de contar a História sem dizer palavra, em homenagem aos descendentes dos mortos do episódio conhecido como Brigue Palhaço, ocorrido no contexto da Cabanagem, no Pará.
No texto de abertura, Quinan situa o trabalho num “...tempo de noites escuras. Entre relheiros, sementes, fogueiras, dominâncias e sonhos de liberdade”. E o define como uma “liturgia leiga e viva” para contar, através da “vontade muda das palavras” o “que nossa história escasseada, descurada, não quer contar”. Nunca ouvi algo tão profundamente comovido e comovente. Tão afetuoso com a História.
Em São José Diligente as vozes de muitos, perdidas no tempo entre risos, lágrimas, tensões, tragédias, algumas felicidades cavalgadas na direção do incerto. Futuro que não há, no amor que há na morte da esperança.
Cada acorde uma “vontade muda” que grita e roga por compaixão. Apelo à lembrança dos dias que virão. Uma exuberância! E a cavalgada... levando a alma a sair pela boca. Tensão... Insensatez... aflição...
Na Canção do Reino a dança da corte nua. Olhares furtivos, seios vertidos em apelos lancinantes. Lascívia da pele que fala segredos de amor... e de morte. Passos escassos, lentos, precisos na direção do que vê, na contramão do que sente. Não há coração... só a intensidade da emoção, da presente vontade imprecisa da razão. O agora, a urgência, a inconseqüente vertigem do desejo.
Choro de Valsa faz a saudade falar sem dizer nada. Inevitável chorar manso feito água que esqueceu de secar. Conversa de amor que amacia o coração em silêncios imprudentes, como se as partituras fossem escritas na alma do ser amado. Há súplicas, despedidas e um acalanto que descreve no olhar a dor da ausência, guardada numa carta que de tão dobrada fechou-se em vincos.
É necessário ar, suspiro fundo e um certo tempo para que o coração se despeça de Choro de Valsa, até deixar que Camboinha traga o dia levemente, desde o seu mais tenro amanhecer. Céu azul no vilarejo, crianças descalças correm na poeira solta do sopro do vento. Moça bonita ergue o cesto no portal do tempo. E o dia caminha na feira, no porto, atravessa a estrada num carro de boi, enquanto a cigana dança suas fitas num centro da praça. Tem alegria, esperança. Tem calmaria no seio da mata.
Roncador diz sobre as esquinas do cotidiano, as conversas ao pé da porta de um lugar perdido entre o que terá sido, e o que ainda é. Entre as possíveis verdades e as prováveis mentiras da história escrita a tantas mãos, contada a tantos interesses. É como se uma orquestra de anjos conversasse em dialeto do céu com os seres errantes da terra, sobre os caminhos controvertidos da História. Conversa de quem vê o rumo das coisas para além da exatidão, em palavras simples e claras que ecoam desde lá até o então.
Relembrando surge de um nada em volta e cresce invadindo os sentidos de tanto sentimento. Ocupa, preenche, inquieta, aflora e deflora a alma da gente. Não há repouso possível para a lágrima que quer chorar. É tanta saudade, súplica, eterno desaguar. A música feito lâmina cega que quer cortar. Nunca mais tanta dor, nunca mais tanto amar.
Reduto acalma o coração dentro do peito. Diz a ele que há esperança, há compaixão. Acalanto em memória das perdas, das saudades que não tem mais cor. Sinal de vida no rumo do lamento e da imperativa vontade do amor. Lucidez cálida, razão na dor, sábio destino curando as feridas rasgadas na carne a corte de facão.
Pedindo Campo abre o portal da força de uma gente desassossegada na chama da contradição. Vida ao extremo em conflitos históricos servidos ao tempo na bandeja do martírio. Traz a face da guerra, da reação. Traz a negociação da paz que respira em algum canto de chão. Um ir sem partir. Um permanente desejo de ficar.
Conversa de Guerreiro inquieta e cria a expectativa épica do desenlace. Tem o exercício da inteligência como ferramenta de luta, da arte de conviver no mesmo plano com a luz da razão e a sombra da crueldade, Tem a peleja, o sobressalto, as artimanhas da sobrevivência em conluio com o insólito poder da vontade. Tem a possibilidade da dor escrita com fio de pedra no chão do campo de morte.
Na Gafieira a nossa mais complexa brasilidade, cheia de cortes e cicatrizes que dançam redesenhadas na alegria. O amor de chinelo de dedo em chão de barro. O riso, a sensualidade mergulhada no olhar provocante, no passo oscilante de quem quer mais do agora. No gingado exuberante onde tudo se redime e a vida faz sentido. Onde o simples é infinitamente belo e a dor não faz do corpo estalagem.
Eito é o depois da festa. O depois da alegria efêmera. Quando as cicatrizes ressurgem pungentes no pulsar da gente. Faz a pele entrar em estado de espera. Devolve aos músculos a estação das chuvas e pede recolhimento. Abre as janelas do tempo e deixa que as folhas tragam notícias do antes para a tradução do depois. Fala no tocante ao coração cansado de tanto guerrear com a ambição. È despedida sem ser, porque marca na saída a volta do talvez.
Todas as músicas do disco são de Marcos Quinan em parceria com Marco Antônio Quinan, Eudes Fraga, Fernando Merlino e Henrique Pereira Alves. Interpretadas por Fernando Merlino, Fernando Carvalho, Roberto Stepheson, Marco Antonio Quinan, Paulo César Pinheiro, Luciana Rabelo, Pedro Amorim, Waldonis, Pantico Rocha. Com direção musical de Eudes Fraga. O CD pode ser encontrado na loja virtual www.ladodedentro.com.br.
Márcia Corrêa
Agosto/2008
Em tempo
O massacre do "Brigue Palhaço" aconteceu no ano de 1823 quando os soldados - negros, caboclos e índios - rebelaram-se contra os portugueses e juntaram-se ao povo pobre a fim de lutar pela independência da então colônia de Portugal. O movimento foi um importante levante popular militar que queria por fim a uma sociedade escravocrata e tinha como objetivo efetivar a divisão de riquezas. Para fazer frente ao levante, portugueses se uniram e lutaram contra os soldados, que, por sua vez, perderam o embate e foram aprisionados nas cadeias. Nos dias 20 e 21 de outubro de 1823, prisioneiros foram transportados das cadeias públicas para o navio ?Brigue Palhaço?. Na ocasião, 252 soldados foram mortos sob a justificativa de serem anarquistas. (Extraído do Centro de Mídia Independente).